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O
Histórico do Fumo
O ato hoje casual de acender um cigarro e sorver a fumaça
tem sua origem perdida no tempo. É praticamente impossível
determinar como e quando alguém teve pela primeira
vez a idéia de acender e aspirar a fumaça das
folhas secas do tabaco, planta originária dos Andes.
O tabaco acompanhou as migrações dos índios
por toda a América Central, até chegar ao território
brasileiro. Mas certamente a propagação mundial
deste comportamento confunde-se com a história do chamado
Novo Mundo: a vasta extensão de terras recém-descobertas
que Cristóvão Colombo descobriu em 1492.
Muito antes dos europeus pisarem este lado do planeta, o fumo
fazia parte do cotidiano dos nativos da América, e
sua função estava muito mais relacionada aos
sistemas de crenças destes povos do que ao prazer puro
e simples do consumo. No Brasil, na época do Descobrimento,
o fumo fazia parte dos rituais dos índios de todas
as tribos que entraram em contato com os portugueses: como
se observou mais tarde - e os relatos dos marujos de Pedro
Álvares Cabral confirmaram - a fumaça obtida
a partir da queima das folhas era considerada a materialização
milagrosa do hálito dos pajés.
A
novidade foi motivo de comentários nas cortes européias.
Além dos hábitos incomuns - como andar sem roupas,
pintar a pele e lavar o corpo com grande freqüência
- as gentes da América também aspiravam fumaça...
Uma novidade difícil de acreditar, por mais que diversos
relatos, como o de Gabriel Soares de Souza, tentassem explicar
a atividade da forma mais didática possível:
"vimos que alguns nativos demonstravam grande aplicação
em sorver a fumaça das folhas queimadas para dentro,
até que lhes saísse pelas ventas".
Por sua aura de delícia e magia, e suas propriedades
consideradas curativas, o fumo imediatamente chamou a atenção
dos conquistadores. Em 1518, o missionário espanhol
Romano Pane enviou ao Imperador Carlos V um punhado de sementes
de tabaco que foram cultivadas por Sua Alteza com todo o cuidado,
daí resultando a primeira plantação européia.
Bem antes disso, porém, alguns marinheiros da esquadra
de Cabral já tinham levado para o mar os seus pedaços
de fumo. Muitos o usavam para pulverizar o pó sobre
as feridas, já que os índios reconheciam o poder
do tabaco como cicatrizante. Mas a grande maioria preferia
fumá-lo, para diminuir o tédio e a melancolia
das horas lentas do mar, por destinos que podiam levar um
homem a ficar longe de casa por meses ou anos.
A
expansão mundial do uso se deve, sem sombra de dúvida,
à interação de Portugal com sua colônia,
o Brasil. Por volta de 1550, causavam furor na corte de Lisboa
as descrições do poder curativo da planta trazida
da colônia por Luís de Góis, um donatário
que viera ao Brasil em 1530, na expedição de
Martin Afonso de Souza. Após 12 anos explorando as
particularidades da nova terra, Góis voltou para casa
levando na bagagem as sementes do tabaco. Por suas propriedades
medicinais e aspecto exótico, o vegetal foi imediatamente
plantado nos jardins da Infanta D. Maria, e a mística
em torno de suas qualidades começou. Logo o "mistério
dos feiticeiros d'além-mar" passou a ser chamado
de "Erva Santa", ou "Erva-das-Índias",
capaz de curar dores de cabeça, males do estômago
e as temidas manifestações do Noli me Tangere,
ou úlceras cancerosas.
O
capítulo que a introdução do fumo ocupa
na história da farmacologia é dos mais interessantes.
Provando que a tendência a acreditar em curas milagrosas
é bastante antiga , tão logo o tabaco foi introduzido
em Portugal transformou-se num sucesso . Incomodados com a
existência de um medicamento natural tão poderoso,
mas que escapava totalmente à descrição
de suas minuciosas anotações, grupos de "físicos"
(os médicos da época) optaram por uma estratégia
científica pouco ortodoxa. Puseram-se a escrever tratados
sobre o fumo mesmo sem jamais terem visto uma folha!
Foi
assim que, rapidamente, surgiu toda uma "literatura médica"
empenhada em provar que a "Erva Santa", em diversas
proporções e combinações, podia
curar nevralgias, gengivites, fístulas, pústulas,
dores de dentes, bicheiras e outras doenças de animais
e doenças de pele entre outros males. Naturalmente,
várias vozes se levantaram contra a tendência
de transformar toda a farmácia da época em uma
"botica de uma droga só" - e a calorosa discussão
entre tabagistas e antitabagistas, que já dura cinco
séculos, começou.
Não
sabemos até onde estes eminentes debates influenciaram
o embaixador francês na corte portuguesa, Jean Nicot.
Mas sem dúvida alguma foi dele a decisão de
mandar uma partida de fumo, com algumas instruções,
a sua rainha, Catarina de Médici, esposa de Henrique
II, atormentada por crises contínuas de enxaqueca.
O fumo chegou às mãos de Sua Majestade em 1559.
Imediatamente a rainha começou a cheirar o pó
e a pitar pequenos cigarros, sendo seguida por boa parte de
sua corte.
A
iniciativa de Nicot fez com que, mais tarde, o botânico
De la Champ batizasse o tabaco, cientificamente, como Herba
Nicotiana, dando o nome do embaixador a todo o gênero
de plantas ao qual o fumo pertence.
A
primazia de Nicot como divulgador do tabaco gerou, no mínimo,
uma crise de ciúmes, que acabou legando aos brasileiros,
em conseqüência, um dos mais interessantes relatos
sobre a invasão francesa ao Brasil, em 1550. O Padre
Andre Thevet, que acompanhou Villegaignon em suas caravelas,
não hesitou em escrever um livro para provar que era
ele, e não o diplomata de Sua Majestade, o responsável
pela chegada do tabaco à França. Verdade ou
não, o fato é que o tabaco entrou na França,
na Espanha e em Portugal na década de 1550, mas demorou
mais quinze anos para apresentar-se no Reino Unido. Ou seja:
os ingleses só tiveram contato com o tabaco a partir
de 1565.
Nesta
época, a Espanha já estava popularizando o rapé,
que logo se tornou moda nos salões: o pó finíssimo
das folhas torradas e moídas era servido em ricas caixinhas
de metal e porcelana, trabalhadas com ouro e pedras preciosas.
É também neste mesmo período que o cachimbo
se incorpora à imagem típica do inglês.
A origem do cachimbo é curiosa: surgiu da adaptação
do objeto tradicionalmente usado pelos índios norte-americanos,
que aspiravam a fumaça pelo nariz a partir de exóticos
tubos em forma de Y. Da Virgínia, colônia britânica
que, mais tarde, faria parte dos EUA, Sir Walther Raleigh
levou a moda para a Inglaterra. E logo passou a plantar o
fumo, juntamente com a batata, nas vastas extensões
de terra que foram designadas pela Coroa para este fim.
Respaldado
na aceitação dos poderosos e viajando nos bolsos
dos marinheiros que atravessavam o globo, o fumo espalhou-se.
Das algibeiras inglesas, o cachimbo e a bolsa de tabaco saltaram
para a Holanda, a Alemanha, a Rússia e invadiram toda
a Ásia, via Balcãs. O hábito passou dos
moscovitas aos tártaros orientais, atingiu a África,
a Ásia Menor, a Grécia, a Hungria, a Polônia
e, em seqüência, todos demais reinos do Norte.
E
Portugal? Após anos de experiências, os portugueses
desenvolveram uma tecnologia própria para a confecção
de cigarros e charutos primitivos, que passaram a acompanhá-los
em suas viagens de expansão. Foi por esta via que o
tabaco chegou às Filipinas, em seguida ao Japão,
e por fim, à China. Pela mesma época, a Itália
o descobre pelas mãos do Cardeal Tornabona, que ensina
seu cultivo ao Rei das duas Sicílias. Em meados do
século XVII, o mundo inteiro fumava. E a Companhia
Holandesa das Índias Ocidentais tratou de dar novos
mercados ao interessante negócio. Com sua longa experiência
em monopólios, a poderosa Companhia organizou as rotas
para que a Europa passasse a receber fumo principalmente a
partir da Holanda, que o importava da América - em
particular da Virgínia, Antilhas e Brasil, onde estavam
as maiores plantações - redistribuindo-os depois,
de acordo com seus interesses econômicos. É por
este motivo que a Alemanha, por exemplo, durante muito tempo
só pôde abastecer os seus cachimbos com o fumo
proveniente da Virgínia, mas despachado via Amsterdã.
Não
demorou muito para que as nações envolvidas
com o consumo e a produção de fumo descobrissem
que ele estava se tornando um negócio muito lucrativo,
capaz de pesar decisivamente na balança comercial dos
países produtores e distribuidores. Calcula-se que
o tabaco brasileiro, na época, rendeu nada menos que
2 milhões de libras esterlinas, levando Antonil, importante
observador econômico do Brasil Colônia, a escrever:
"É já, (o fumo), depois das alfândegas,
a principal receita do Estado. As décimas não
receberam mais que 174 contos e 350 o imposto de cisas; em
nenhum ano deram mais à Coroa as minas de ouro e dos
diamantes do Brasil."
Controlado
e tributado desde cedo no Brasil, o fumo e seus derivados
só passaram a sofrer a interferência direta do
Estado pelo mundo afora no auge do período napoleônico,
graças a um episódio casual. Conta-se que, em
sua festa de casamento com Maria Luíza, Napoleão
ficou impressionado com a exuberância dos trajes e jóias
de uma senhora desconhecida que, no salão, ofuscava
até mesmo a rainha. Perguntou quem era, e recebeu a
resposta surpreendente: não era uma nobre, mas uma
burguesa, esposa de um riquíssimo fabricante de cigarros!
O
Imperador - que era não apenas um excelente estrategista,
mas também um administrador preocupado com a solidez
do seu tesouro - considerou que uma fonte tão espetacular
de lucro não poderia ficar abandonada apenas nas mãos
de particulares. E o resultado da ostentação
da bela senhora foi que, pouco depois, o monopólio
da comercialização de tabaco em toda a França
passou para as mãos do Estado.
Até
os últimos anos do século XVI, os colonos portugueses
obtiveram fumo pelo escambo, sistema de trocas que beneficiava
muito mais o colonizador que os índios. Percebendo
que estavam perdendo a terra, as riquezas que existiam nela
e a própria liberdade, os índios não
tardaram a reagir. Começava aí o longo ciclo
de guerras que marcou de forma dramática as primeiras
páginas da História do Brasil, e que tiveram
influência direta na produção de fumo.
As
primeiras lavouras de tabaco formadas pelos colonos surgiram
da necessidade de garantir o consumo próprio. Como
as "escaramuças" entre flechas e canhões
nunca tinham data certa para começar - nem para acabar
- era preciso plantar o próprio fumo ou esquecer o
cigarro, pois os índios, até então os
únicos produtores, nem sempre estavam dispostos a colaborar.
Logo, porém, muita gente apareceu disposta a comprar
o excedente: afinal, na Europa a procura crescia, e vários
negociantes começavam a vislumbrar as grandes possibilidades
de lucro que surgiriam a partir da criação de
uma via regular de abastecimento.
Enquanto
a cana-de-açúcar era plantada em larga escala,
o fumo ocupava áreas reduzidas, concentradas entre
Salvador e Recife, sobretudo nos arredores de Cachoeira, no
Recôncavo Baiano. A produção era basicamente
doméstica. Apenas a partir do final do século
XVII surgiram produtores com maior capacidade, que passaram
a empregar mão-de-obra escrava. Até então,
como a atividade não ocupava os doze meses do ano,
quase todos os produtores eram também senhores de engenho
e criadores de gado, que afirmavam que "faziam algum
fumo" como complemento da renda familiar.
Na
primeira metade do século XVII, durante a ocupação
holandesa em Pernambuco, o fumo produzido naquela Capitania
ocupou papel importante na carteira comercial de produtos
oferecidos pela Companhia das Índias Ocidentais. Com
o estabelecimento definitivo da primazia portuguesa na colônia,
começaram a aparecer as primeiras legislações
reguladoras da atividade produtiva. Em 1674, o monopólio
da metrópole foi garantido, através da criação
da Junta de Administração do Tabaco, cujas determinações
estabeleceram as "regras do jogo" não apenas
para o Brasil, mas para todas as colônias portuguesas.
O surgimento da Junta significou também o início
de uma pesada tributação sobre o fumo (dízimos,
taxas aduaneiras, donativos, direitos locais), que vigoraram
principalmente na Bahia e em Pernambuco, já que no
Rio de Janeiro a cultura foi proibida e todo o comércio
dado a um particular.
De
1690 a 1730, uma legislação especial tentou
regular o comércio a partir do controle das cargas
transportadas. As vastas extensões do território
e a diversidade de áreas produtivas fez com que a norma
não obtivesse muito sucesso. Somente em 1751, sob a
mão firme do Marquês de Pombal, foram criados
novos regulamentos e órgãos especiais como a
Mesa de Inspeção do Tabaco. A partir desta data
a legislação enfim se estabilizou e vigorou
até depois da Independência.
Nesta
época, o fumo brasileiro passou a ter três destinos
principais. O produto de primeira e segunda qualidades era
exportado para Lisboa. De lá, cerca de 60% era comercializado
para a Europa – Portugal, e ilhas adjacentes consumiam
o restante. O fumo de terceira qualidade tomou um destino
até então inexplorado: o tráfico de escravos
africanos.
Foi
a partir desta época que o fumo baiano virou a principal
moeda nas transações que envolveram compra e
venda de escravos, especialmente na Costa da Mina e, em menor
escala, em outras regiões da África, como Angola
e Moçambique. As lavouras de fumo cresciam, para atender
às necessidades de um sistema de produção
que dependia mais e mais do braço escravo, privilegiando
a sede de lucros da metrópole. A necessidade era tanta
que Lisboa, que normalmente controlava com vigor todo e qualquer
produto das colônias, inúmeras vezes simplesmente
desprezou os excessos de produção das lavouras
de tabaco da Bahia. Por fim, estas acabaram por se desenvolver
com maior autonomia que qualquer outra atividade produtiva
no Brasil colônia. Embora as quantidades para exportação
fossem controladas (apenas 200 toneladas por ano na primeira
metade do século XVII) e a qualidade determinada (só
o fumo de terceira qualidade era enviado à África),
a verdade é que o intercâmbio entre a Bahia e
a Costa da Mina representou nada menos que 30% das exportações
de fumo do Brasil, durante o período colonial. Esta
relação durou até o fim do tráfico,
no século XIX, e está na origem da riqueza de
vários comerciantes baianos.
Com
a extinção do tráfico negreiro, o fumo
baiano teve que buscar outras direções. Mas
o comércio não chegou a ser afetado: a produção
destinada à Costa da Mina foi redirecionada para a
Europa e o mercado interno, com vantagens. Ao final do século
XIX, o fumo já havia se consolidado como um elemento
fundamental na formação econômica e social
do país.
No
período colonial, o Brasil, como todas as possessões
portuguesas, estava terminantemente proibido de ter fábricas
em seu território. Condenado à produção
da matéria-prima - e a consumir produtos manufaturados
da metrópole - o país teve que aguardar até
1808 pela chegada da Corte Portuguesa ao Rio de Janeiro, antes
de pensar em uma indústria nacional. O alvará
de D. João VI que tratava do tema abriu caminho para
o início do desenvolvimento do setor. E as primeiras
fábricas foram as de rapé.
As
primeiras fábricas de rapé brasileiras de que
se tem notícia foram as de Caetano Januário
(1817) e Pedro José Bernardes (1818), no Rio de Janeiro.
Em 1819, o suíço Frederic Meuron funda a fábrica
de Area Preta, na Bahia, que mais tarde criaria sucursais
em Andarahy Pequeno (Rio, 1832) e em Chora Menino (Pernambuco,
1836). Em 1833, mais duas fábricas apareceram na Bahia,
inclusive a que produzia o famoso rapé Princesa de
Lisboa, no bairro Nazaré. Em 1850, o Rio era o grande
produtor de rapé do país, com cinco fábricas,
entre elas a de João Paulo Cordeiro, cujo prédio
seria comprado, mais tarde, pela Souza Cruz.
A
fábrica de João Paulo Cordeiro era a mais importante
do território fluminense, com produção
de 100 mil libras e faturamento anual de 100 mil réis.
Empregava 53 operários (49 escravos) e era a concorrente
direta da fábrica de Meuron, que na Bahia produzia
165 mil libras anuais de rapé, com apenas 24 operários
(18 escravos e 6 estrangeiros). Juntas, as cinco fábricas
do Rio lançavam anualmente no mercado 347 mil libras
de rapé, empregando 110 operários (98 escravos,
11 estrangeiros e 1 brasileiro). Mas a florescente indústria
logo entrou em decadência. E o responsável foi
aquele que se transformaria na mais nova vedete dos salões:
o charuto.
Símbolo
de sofisticação e bom gosto, o charuto ganhou
os salões no final do século XIX e permaneceu
soberano durante toda a República Velha. Ligado a uma
aura de masculinidade e modernidade, seu surgimento logo dividiu
os adeptos do fumo em tabaquistas (consumidores de rapé)
e fumistas (apreciadores de charutos). Nas ruas e saraus da
época, um e outro propagava a preponderância
de sua opção e de suas idéias. Como o
rapé significava "o velho", e o charuto,
"o novo" (e não podemos esquecer que o século
XX era, então, o novíssimo século), o
charuto venceu, e o rapé desapareceu. Tudo isso, sem
dúvida, contribuiu para tornar o ato de fumar charuto
um verdadeiro ritual, que até hoje conta com inúmeros
adeptos.
Por
ser inteiramente artesanal, a indústria de charutos
sempre teve características muito especiais. Não
havia necessidade de maquinaria, prédios especiais,
nem pessoal muito numeroso. A fabricação era
caseira: com freqüência, as próprias famílias
dos lavradores produziam os charutos à noite, depois
do trabalho na roça. A facilidade da produção
doméstica deu surgimento às primeiras cooperativas
de produtores. Em 1842, os alemães de São Leopoldo
do Sul (RS), uniram-se para comercializar sua produção
que chegava a 21,2 mil unidades mensais, com lucros de até
800 mil réis.
Mesmo
assim, começaram a surgir pequenas fábricas,
cerca de 300, espalhadas pelo país, com média
de apenas 5 funcionários em cada uma. Foi na Bahia,
em 1851, que surgiram duas das principais manufaturas cujos
produtos marcaram época: a de Costa Ferreira &
Penna, e a de Viera de Melo. A partir de 1870, nomes como
Danneman, Suerdieck, Pimentel e Companhia de Charutos Poock
começaram também a fixar suas marcas no mercado.
Quase totalmente consumida no país, a produção
charuteira chegava aos 40 milhões de unidades/ano em
meados do século XIX, subindo para 60 ou 70 milhões
no fim do século.
Não
que ele fosse desconhecido: afinal, o hábito de desfiar
o fumo de corda e colocar dentro de uma palha para enrolar
os cigarros viajou nas caravelas, com os portugueses.. Mas
a transformação do cigarro em indústria
altamente produtiva, no Brasil, é um fenômeno
do século XX. Antes disso, os poucos cigarros industrializados
disponíveis eram importados, e consequentemente, muito
caros: além do valor da exportação, havia
a questão dos impostos. O surgimento da indústria
nacional cigarreira contribuiu para a queda do consumo do
charuto.
Em
1874, o português José Francisco Correia estabeleceu
um pequeno negócio de fumo na Rua Sete de Setembro,
centro do Rio de Janeiro, com capital inicial de apenas 100
mil réis. Dois anos depois, a fábrica ampliou-se,
já com o nome de Imperial Estabelecimento de Fumo,
responsável pela produção do famoso fumo
Veado. Mais tarde, a fábrica foi transferida para Niterói
e permaneceu vários anos como uma das primeiras do
mercado nacional. Foi nela que um outro português deu
seus primeiros passos na indústria de fumo: o jovem
Albino Souza Cruz, que mais tarde fundaria sua própria
empresa.
Em
1880, outra grande manufatura de fumo surgiu em Pelotas (RS).
Sua marca Cerrito permaneceu no mercado e, em 1912, obteve
prêmios de qualidade não apenas em Porto Alegre
mas também no Rio de Janeiro, Turim e Milão.
O
século XX trouxe pleno vigor para a indústria
cigarreira, que passou a dividir suas atividades em dois tipos
de fábricas: as que desfiavam o fumo e as que o beneficiavam
para exportação. Estas fábricas, ligadas
à companhias exportadoras, trabalhavam para atender
às exigências específicas do mercado externo:
folhas finas e sedosas para a Áustria; bem secas, destaladas,
castanhas ou avermelhadas para a Inglaterra; muito claras,
elásticas e resistentes, para a Alemanha. As fábricas
desenvolveram-se principalmente em São Paulo, Rio de
Janeiro e Rio Grande do Sul, embora alguns estados que produziam
pequenas quantidades de fumo tenham lançado também
suas marcas no mercado, a partir do fumo já processado.
É o caso do Ceará, Sergipe e Maranhão,
que no ano de 1900 produziram, respectivamente, 3,5 milhões,
200 mil e 35 mil unidades de cigarros, rapidamente absorvidas
pelos seus mercados internos.
Atualmente,
com a modernização de maquinário da indústria
e grande facilidade de obtenção de matéria-prima,
a indústria de cigarros no Brasil vem mantendo uma
posição entre os maiores produtores.
A atual estrutura da lavoura, indústria e comércio
de fumo surgiram da concentração ocorrida entre
1910 e 1930, conseqüência direta dos movimentos
de diversificação da produção
acontecidos no século XIX.
Com
o final da liberdade vigiada que Portugal impôs ao Brasil
durante o período colonial, as lavouras de fumo entraram
numa fase de grande expansão. Tornou-se possível
cultivar qualquer espécie, em qualquer lugar. Além
disso, a possibilidade do comércio direto com países
estrangeiros representou um grande incentivo. Nesta arrancada,
que começa efetivamente a partir de 1850, as províncias
que se destacaram foram as de Goiás, Minas Gerais,
Bahia e, por um fenômeno especial ligado à vinda
dos imigrantes alemães, Santa Catarina e Rio Grande
do Sul. Em São Paulo, a cultura foi favorecida pelo
aumento populacional motivado pela chegada de milhares de
imigrantes que vieram trabalhar nas fazendas de café.
Mas o estado nunca foi auto-suficiente no setor, e sempre
dependeu do fumo de outros locais para atender sua crescente
demanda.
Foi
também nesta época que o fumo goiano passou
a ser apreciado em todo o Brasil e no exterior. Tido como
uma variedade típica, com sabor característico
e único no mundo, o fumo de Goiás conquistou
o primeiro prêmio na Exposição de Filadélfia
- EUA, em 1875.
No
século XX, a produção se dividiu em duas
vertentes bastante específicas. Enquanto a Bahia conservava
sua cultura tradicional de fumos escuros para charuto e folha,
o Rio Grande do Sul especializava-se nos fumos claros, principais
componentes dos cigarros, cuja indústria estava em
expansão. Foi a partir desta fase que a produção
no Sul do país começou de fato a se consolidar.
Entre 1920 e 1925, a Bahia e o Rio Grande do Sul, juntos,
representavam 52,27% da produção nacional. Nos
cinco anos seguintes, passaram a responder por 79,93%. Em
1930, a produção dos dois estados quase se igualava:
39, 9 mil toneladas na Bahia (fumos escuros) e 30,34 mil toneladas
no Rio Grande do Sul (fumos claros). Surgiu também
uma diferença de tecnologia: enquanto a Bahia continuava
com a secagem ao sol e em galpões, desde 1920 o Rio
Grande do Sul especializou-se na secagem em estufa, melhorando
sensivelmente a qualidade de seu produto. Os demais estados
produziam apenas fumo de corda.
As
grandes fábricas que concentraram a produção
fumageira são um fenômeno do século XX.
Na Bahia, as pequenas empresas familiares foram desaparecendo
aos poucos, dando lugar às fábricas de maior
envergadura que começaram a se associar, ocupando fatias
cada vez mais expressivas do mercado. Nas primeiras décadas,
cinco grandes indústrias dominavam o setor: a Suerdieck
& Cia, a Costa Ferreira & Penna; a Stender & Cia;
a Viera de Mello e a Dannemann & Cia. Juntas, elas produziram
61,2 milhões de charutos em 1919 - 48% da produção
nacional. No ano seguinte, a participação cresceu
para 75%.
A
necessidade de fortalecimento diante das novas exigências
do mercado fizeram com que os conglomerados continuassem a
se concentrar. Em 1922, a Dannemann uniu-se à Stender
& Cia. Em 1941, a Suerdick & Cia uniu-se à
Vieira de Mello. Em 1930, juntamente com a Costa Ferreira
& Penna, estas companhias respondiam por quase toda a
produção de charutos do país.
O
setor cigarreiro também sentiu a necessidade de adaptação.
Devido a grande procura no mercado interno, o número
de fábricas crescera rapidamente, principalmente no
Rio, São Paulo e Rio Grande do Sul. Em 1912, as maiores
empresas já resultavam da associação
de homens de negócios cujos nomes eram conhecidos no
setor, como José Lopes Correia & Cia, Lopes Sá
& Cia, Paulino Salgado & Cia, e Souza Cruz & Cia,
todas do Rio de Janeiro. Além destas, merecem destaque
a Leite & Alves (com fábricas no Rio e na Bahia),
a Gonçalves & Guimarães, a maior de São
Paulo e a Henning & Cia e a dos irmãos Schultz,
ambas no Rio Grande do Sul. Em 1920, estas empresas respondiam
por cerca de 80% da produção nacional, que chegava
a 300 milhões de maços.
O
setor de beneficiamento de fumo em folhas também não
escapou ao fenômeno da concentração. O
principal exemplo ocorreu em Santa Cruz do Sul, onde em 1918
seis beneficiadoras se uniram para formar a Companhia de Fumos
Santa Cruz. Entre seus sócios, estavam os irmãos
Schultz, que tinham a maior fábrica de cigarros da
região sul e a empresa de Theodoro F. Schilling &
Cia, também proprietária de uma fábrica
de cigarros. O capital inicial de 500 contos de réis
subiu rapidamente para 1, 2 mil e chegou a 2 mil contos em
1926, tornando a companhia a maior beneficiadora de fumo do
país.
Ao
longo do século XX, a produção da indústria
brasileira não parou de crescer, tendo garantido não
apenas o abastecimento externo, mas uma vigorosa retomada
das exportações. Nos últimos seis anos
do século XX, o Brasil alcançou a liderança
mundial nas exportações de fumo em folha, conseqüência
da alta qualidade e segurança de abastecimento. Os
principais compradores são, pela ordem: Alemanha, Reino
Unido e Estados Unidos. Em 1999, 305,6 mil toneladas foram
enviadas ao mercado externo, movimentando cifras da ordem
de US$ 951,2 milhões e respondendo por 1,86% do comércio
exportador.
O
Crescimento das Exportações de Fumo em Folha do
Brasil
Fonte : Perfil ABIFUMO
Fonte da reportagens: SOUZA CRUZ
www.souzacruz.com.br |